Uma viagem por paisagens, pratos e copos de um Douro cada vez mais ouro.
Pedro Mello e Souza
Antes de mais nada, vamos reparar uma das grandes injustiças da humanidade: os mais de 200 quilômetros de encostas vinícolas ao longo do Rio Douro estão, facilmente, entre as oito maravilhas do mundo. Uma a mais das sete tradicionais, que incluo com boa base. O motivo é de se perder o fôlego e a vista: tal como a pirâmide de Gizé, o Colosso de Rodes ou os Jardins Suspensos da Babilônia, toda aquela gigantesca escultura, a maior do mundo, foi feita à unha, em tempos de pouca ou nenhuma tecnologia. E já decorava a paisagem muito antes que a palavra Douro surgisse de os lendários pores do sol no fim do verão, iluminando todo aquele mundo ao acender o dourado das folhas já secas pelos outonos.
A vista pode vir de vários ângulos. A primeira quando os barcos que saem das docas de Peso da Régua sobem Douro acima. Dali, vemos aquela imensa obra de arte a partir da linha d’água. Na única interferência, tal como nas legendas de um quadro, a identificação de cada uma daquelas vinhas veneráveis: vêm os portos – com as terras da Taylor’s, as quintas da Roeda, do Pessegueiro e da Romaneira, os domínios da Royal Oporto e da Quinta das Carvalhas – para citar as duas mais nobres da Real Companhia Velha. Nos perfis de cada curva do rio percebem-se a origem do grafismo da região: as fileiras intermináveis de socalcos e os “degraus” feitos pelos trasmontanos ao longo dos últimos três séculos. Circulam a região como um feixe de veias, cujo sangue derrama nos copos mais celebrados do mundo atual.

Dois ângulos do Douro: aqui, a fusão do rio com a piscina da Quinta das Carvalhas; na página ao lado, os vinhedos que despencam sobre o rio com seus motivos decorativos.

Fotos: Pedro Mello e Souza
Os labirintos verdes nos jardins do Palácio do Cidrô. Abaixo, a cor rica e profunda de um dos melhores vinhos de todos os tempos, o Real Companhia Velha, Porto Vintage, 1908.

Os labirintos verdes nos jardins do Palácio do Cidrô. Abaixo, a cor rica e profunda de um dos melhores vinhos de todos os tempos, o Real Companhia Velha, Porto Vintage, 1908.

A bordo do barco, claro, o brinde é farto. E dá perspectiva a um segundo ângulo da vista do vale, o das eclusas. No melhor estilo de um Canal do Panamá, um jogo de comportas de uma das barragens que deixam o Douro navegável, diferente daquele desfiladeiro de solo pedregoso de antes. O contato monumental com a engenharia torna-se ainda mais perceptível com um copo na mão. Começamos a ver os vinhedos dos pontos mais altos, pelo menos 40 metros acima. Calma e um silêncio dominador, especialmente quando o barco desliga o motor, deixando apenas um rumor que só pode vir da força dos crescimentos daquelas videiras.

Numa das curvas, uma doca inesperada nos deixa prontos para subir para um autêntico retiro espiritual, histórico e tecnológico: a Quinta do Cidrô é um palácio completo, com direito aos labirintos verdes na esplanada da entrada principal, aos salões de luz discreta, mas que mostra o olhar atento dos quadros que retratam todos os dignatários que ali passaram, inclusive reis, rainhas e princesas. O nome Real não é aleatório nessa Companhia, que é Velha no nome, mas faz alguns dos mais irreverentes vinhos de mesa do Douro.
A viagem pela Quinta do Cidrô – não mais o palácio, mas o rótulo – passa por algumas experiências interessantes e, em alguns casos, inesperadas. Duas delas em ambientes que não tinham nada de palacianos: a Taberninha do Manel, um pequeno restaurante de Vila Nova de Gaia, separada do Porto pelo rio e unida pela grande Ponte de D. Luís I, que faz sombra à calçada cheia de mesas, todas cobertas com especialidades da região. Uma delas, as sardinhas assadas, que ganharam quase um molho vindo do copo, com a uva rufete. Muito leve, lembrando um gamay, foi encontro perfeito com o petisco, sua acidez, sua gordura.

Outras duas experiências excelentes vieram também da vizinhança do Douro, nas marisqueiras de Matosinhos, no norte da cidade. Em uma, com um alvarinho produzido no Alto Douro, é experiência que poucos se atrevem. Outro paladar, outro frescor, outra acidez, bem diferentes daquelas que conhecemos da área dos vinhos verdes. E acompanharam com valentia a pratada de camarões com os percebes que, para quem não sabe, é um dos mais delicados de todos os frutos do mar. Na mesma marisqueira, tivemos a experiência de uma uva alemã, a gewurztraminer, impensável naquela área. Até agora, quando fez um par ardente com a sapateira, o maior de todos os caranguejos, com doçuras delicadas vindas tanto do prato quanto do copo.
Não nos esquecemos do terceiro grande ângulo do vinho do porto, o das sedes das quintas, que ficam nas mesmas encostas dos vinhedos. Em quase todos um estilo – meio manoelino e neoclássico – de casas muito brancas, com as linhas seculares em perfeita harmonia com a paisagem, mas também com modernidades, como as piscinas de borda infinita. Na Quinta das Carvalhas brilhou o vinho da casa, servido com outra ousadia gastronômica, o confronto entre um branco e um prato rico em ovos, no caso o de um suflê de bacalhau.
É o valor da escultura, é o calor daquela altura – sim, o verão no Douro é abrasador, quase insuportável, inclusive para brasileiros, desacostumados com aquela atmosfera dos vinhedos que perdemos de vista – o que a vista não perde é o exercício fascinante da obra do homem ou, como dizia um Camões adaptado, “cantando espalharemos por toda a parte, se a tanto nos permitir o engenho e arte.”

Margens entre a contemplação e a ousadia: os tawnies 20 e 40 anos da Real Companhia Velha. E o Quinta do Cidrô Rufete, um monocasta inédito, combinação perfeita com a sardinha assada.


